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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

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A luz da esperança

 

Chamava-se Sofia. Tinha medo da trovoada e da celeridade do vento. Era pequena perante as tempestades, embora existissem provas suficientes da sua valentia estoica. Tinha pouco mais de quatro anos e os seus olhos de avelã eram feitos de promessas.

Encontramo-nos numa enfermaria, num dos meus internamentos recorrentes.

Naquele quarto estéril, galgamos os jardins da floresta que criamos, fomos as amigas que dividem as tristezas e partilhamos tantos quadros clínicos como bonecas dúcteis que, tão metodicamente, descabelamos.

A preocupação dos meus pais inundava aquele compartimento de amor, enquanto as nossas alucinações se materializavam, enquanto as nossas camas tremiam e o suor se hospedava nas profundezas de dois corpos cansados, entregues ao mundo assético.

 

Nunca lhe vira companhia e isso transtornava-me. Às vezes, lá a via rodeada por homens e mulheres vestidos de branco: os mesmos que picavam os meus braços contorcidos e que, logo depois, me acalmavam as dores.

Ao lado dela nunca esteve ninguém “normal”: uma avó que lhe trouxesse biscoitos ou um pai que lhe oferecesse um livro de banda desenhada. Aquela testa franzida nunca sentira a textura de uns lábios a pousarem sobre si e os seus ouvidos nunca foram sussurrados por uma voz doce e tranquila que lhes dissesse que tudo iria ficar bem.

E era a noite que inquietava a incompreensão dos meus pensamentos... Queria muito ver flores e ter cadernos para riscar no jardim. Queria passear pela vila ao domingo e ver-me de corpo inteiro.

Era difícil de adormecer sabendo que no dia seguinte teria de fazer exames, novamente. Tinha medo. A ilusão de uma dor física trespassava a fadiga que em mim existia e, demoradamente, chegavam os sonhos que apagavam as minhas angústias como os botões que, ao serem premidos, silenciavam toda a ala.

Lá fora, os carros continuavam a passar, iluminando as ruas desertas e o coração sobressaltado da mãe vigilante que sempre me benquis.

Acordei com uma sombra de aguaceiros a latejar contra o vidro da janela. Nas mãos, a minha mãe envolvia uma chávena de leite com chocolate. O seu sorriso brilhava, contrastando com o tom pardo daquele dia.

As camas estavam feitas e vazias. Todas as camas estavam feitas e vazias. A Sofia não estava e não tinha ido fazer exames nem tinha tido alta ou tão pouco ficado melhor. Tinha sido transferida porque deixara de ouvir.

De repente, os pássaros já não cantavam e os xilofones deixaram de ter graça. Afundei-me numa tristeza verdadeira, mesmo sem perceber a razão daquele adeus sem despedida.

Conheci-a mais tarde, quando fui capaz de saber que os progenitores lhe tinham ferido os ouvidos, perfurando-os monstruosamente. Nunca quis acreditar.

Ela deixara de ouvir. Não sei se para sempre porque nunca mais a vi com os meus olhos, apesar de a ver muitas vezes com o coração.

Naquele dia frio as nuvens rasgaram o céu.

Na minha mesinha de cabeceira depositaram uma pequena vela prateada, revestida por pequenos brilhantes da mesma cor. No centro, erguia-se uma protuberância que formava uma árvore de natal.

Era dela. Ainda hoje é minha: a luz da esperança.

Espero que nunca deixe de alumiar as nossas vidas!

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