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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

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Algodão-doce

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Deixei de falar com o passado.

Lembro-me às vezes das nossas conversas, dos conselhos dados pelo espelho retrovisor e dos dilemas captados por uma lente ainda sem risco algum.

Existia eu na flor da idade e existia o banco de trás em pele preta, onde moravam três cintos que pouco apertavam e onde tudo se resumia a uns pequenos carrapitos desprendidos de infelicidades.

Eram os domingos a perder de vista em que ainda havia tempo para ir descobrir cidades: eu no meio de dois braços fortes, de duas mãos suaves, de dois seres que amo.

Parecia-me sempre tudo novo e a vida era um encanto. Até tenho saudades!

Dou por mim a navegar nas longas conversas, no tempo suspenso, na certeza de um dia seguinte sem lugar para preocupações.  

E sobre mim, a melancolia de quem nunca quis crescer depressa, de quem sempre desejou enrolar todas as histórias como se fossem pedaços de algodão-doce. Acreditava que elas não me enganariam ou tão pouco ludibriariam os olhos que hoje são miradouros distantes…

Mas, mais tarde, ofereceram-me um relógio e eu aprendi a ver as horas. Soube distinguir os ponteiros e comecei a ver como a vida se preparava para a maratona: corria, corria e estava sempre atrasada…

E, os senhores bem-postos, perguntavam-me: “Ora, a menina faz favor de me dizer as horas?”

E eu dizia-lhes também os minutos e os segundos. No fundo, sabia que todo o tempo era importante. A vida corria para a morte e eu queria assistir ao envelhecer dos momentos, queria largar aquela mão e voar rumo à meta porque, em cada regresso a casa, a estrada crescia e deixava para trás o horizonte: o pôr-do-sol, o pôr do dia, o pôr de mim.

E, enquanto se punham as histórias, nascia a saudade: a saudade que hoje é reviver o passado.

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