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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Alice

 

Uma noite quente é um turbilhão de sensações. Os lençóis enroscam-se nas pernas esguias e a boca fica seca como a roupa que se estende do avesso perante o sol.

Ao primeiro feixe de luz, que penetre transversalmente a persiana mal corrida, a Alice, encolhida numa cama com dossel, emite o som próprio de quem estremunha sem querer.

A preguiça assoma e o alarme retorque. Quando a melodia sardónica ecoa pelo quarto, até então tácito, sente-se uma revolução dentro daquele peito descoberto.

Inicia-se uma luta sem alvos. Prevalece o esqueleto que se dobra e se distende. Permanece o tempo e a noite: os punhos no ar, interstícios de luz na escuridão.

E lá fora: uma superfície de silêncio. E lá dentro: o turbilhão, o turbilhão, o turbilhão.

Aquela rapariga livre. Aquela hora marcada: abominável, abominável!

A Alice é cada pedaço do infinito preso ao segundo do ponteiro. A Alice é a liberdade pregada aos minutos desfasados da espontaneidade pueril.

E, lá fora, uma superfície de silêncio cobre o céu entrecruzado pelas aves que planam. Amanhece devagar, sem pressa. As estrelas subordinam-se às primeiras nuvens da aurora e o azul vem misturado com a amena neblina do Oriente.

O dia nasce pelas ruelas: pregões da primavera e do peixe fresco. É sexta-feira: um dia que vem depois dos outros dias.

O sol vai espreitando pela janela, acariciando o rosto sereno da Dona Eugénia. Ouve-se o borbulhar da água que ferve na chaleira. Ouvem-se passos: firmes no chão, descalços, despidos, nus.

E, depois, o roçar da cadeira no soalho, o pão fresco sobre a toalha de linho, a compota de morango, o fiambre e o queijo e o leite frio num ambiente quente.

          - Então, Licinha, já não se diz bom dia à avó? Dormiste bem?

As migalhas entre os dentes, os olhos baixos, a nuvem que atravessava e tapava toda a janela. A indiferença onde a mágoa habita. E já a chuva existia.

A avó iria às compras naquele dia. Pegaria no porta-moedas, colocá-lo-ia entre o braço esquerdo de encontro ao peito e atravessaria a rua. Era ali a mercearia da Jacinta.

A sua avó iria às compras naquele dia e ao terço, à tardinha. Na capela onde a Alice quis deixar todas as suas lágrimas. Na capela, naquela capela onde, todos os dias, a dona Eugénia deixava todas as suas lágrimas.

Não houve resposta nem palavras desde aquele dia, aquele dia maldito.

Tudo o que era alma, as almas levaram. Os pais levaram. Os travões naquela estrada, naquela maldita estrada, levaram.

Ficou o corpo, a revolta dentro do corpo, o tumulto dentro da revolta. Permaneceu a avó, a broa de milho da avó, o cabelo branco da avó, a pele engelhada da avó, a tristeza da avó, a força da avó, o amor da avó.

Só a avó, uma casa velha e um dia que vem depois dos outros dias.

De repente, já não há chuva. Não tarda, o sol vai espreitar pela janela. Será outra sexta-feira.

          - Bom dia, avó! Tomaste os comprimidos para a tensão?

Os olhos pesados, o corpo cansado, uma nódoa castanha de suor a jazer pelos lençóis…

Parcas, as palavras e as certezas. A memória a fugir em bicos de pés. E o blister: o som, a forma, a cor, o cheiro, a pena. Segurando o tempo e aquele corpo. O corpo que espera ficar sem alma. A primavera que quer morrer.

Uma noite quente. Um turbilhão de sensações.

 

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