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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

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Crise dos 20

 

Tenho 20 anos.

No dia em que os celebrei quis escrever sobre mim num papel que empalidecesse e pudesse contar as histórias de uma rapariga que vivia perdida dentro de si.

Talvez o ponto de situação da minha vida fosse uma leitura irrelevante para uma avó de setenta anos, mas, a nostalgia que senti no dia do meu último aniversário, estaria certamente presente nos seus olhos: o coração do meu futuro.

E como seria ter coragem para olhar para trás? Como é, na verdade, ter coragem para olhar em frente?

Tenho 20 anos e não sei quantas incertezas cabem nos meus dias.

 

Passo-os ora depressa ora devagar, na corda-bamba que oscila entre o riso fácil e o silêncio mais audível. Sinto-me num constante limiar de inconstância. O amanhã parece tarde, mas está perto: assusta-me!

É complicado gerir as emoções nesta idade, perspetivar um futuro quando não somos detentores de uma estabilidade palpável e até olhar para os restantes membros da família.

A verdade é que, apesar de ser maravilhoso poder acompanhar o crescimento de um novo ser, isso também nos faz perceber como o tempo corre veloz. De repente, já somos capazes de dar conselhos aos primos que estão a iniciar o seu percurso escolar, já sabemos como os “pôr na ordem” e como, acima de nós, existem cabelinhos brancos a ter a mesma sensação de cada vez que nos observam. Quando começamos a ter consciência da nossa efemeridade, passamos irremediavelmente a dar-lhes outro valor, a vê-los com os olhos rasos de ternura e de respeito: um brilhozinho que denota uma admiração incomensurável, um amor sem palavras ou fronteiras.

Às vezes, dou por mim a contemplá-los, a imaginar as nossas vidas daqui a dez, vinte ou trinta anos e tiro-lhes fotografias.

Tento que a minha memória não se esgote e que armazene todas as recordações que vou colecionando à espera de que, um dia mais tarde, as possa revelar nos meus pensamentos.

Faço preces, baixinho: Intercedo pela saúde e peço muitos dias tranquilos. Imploro para que os homens parem de destruir o mundo, de dividir nações, de extinguir a chama que nos mantém vivos e o sentimento que nos fez florir.

Gostava de ainda acreditar na eternidade. De saber que aqueles rostos, aquelas vozes e aqueles cheiros nunca se iriam desvanecer diante de mim. Ah! Como gostava que me pudessem ver crescer para sempre...

Como queria tantas vezes ser tão diferente. Não estar envolta nestes sentimentos contraditórios e saber quem realmente sou.

Sei que sonho demasiado e estas sensações inversas agravam-se quando somos sonhadores. Para os lunáticos, a frustração é maior e o tempo passa ainda mais depressa. O “mundo inteiro por descobrir” de outrora torna-se maior a cada dia e é, a cada dia, mais difícil de encontrar um lugar que nos cative, um sítio que nos prenda, uma razão que nos faça ficar, uma hipótese entre as inúmeras impossibilidades.

Talvez esta seja a crise dos 20, o retorno de Saturno. A idade na qual começamos a questionar tudo, a apercebermo-nos, de facto, da fragilidade da condição humana e das limitações que lhe são inerentes.

Agora começamos a entender que não somos capazes de tudo, que não somos donos da eternidade, que não temos todo o tempo do mundo.

Começamos a duvidar das nossas escolhas e a lamentar os erros e as oportunidades deixadas no passado. Continuamos a querer ser astronautas, descobrir o espaço e o tempo, saber de onde veio tudo isto, mas prosseguimos sem nos conhecermos. Não sabemos lidar com os problemas, com as desilusões e os dissabores e, no meio do nosso egoísmo, vendamos os nossos próprios olhos.

Deixa de haver tempo para mergulhar na simplicidade, para olhar à volta e deixar de pensar, para nos darmos ao mundo e deixarmos que ele nos abra caminho.

Deixa de existir o único tempo que temos porque andamos à procura de mais. Somos vítimas das ilusões que criamos e detestamos teias de aranha porque, aos poucos, vamos tecendo a nossa própria cerca, perecendo nela.

Tenho 20 anos: 20 anos a menos de algo que ainda tem tudo para ser demais!

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