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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Entregue de bandeja

 

Depois de uma chuva de estrelas oculta, o sol penetrou lentamente nos escaparates que resguardavam pouco mais do que os excedentes do dia anterior.

O dia previa-se longo, quente e desgastante.

Era domingo: o dia abençoado para realizar qualquer cerimónia religiosa que acabaria ali, na prática de um dos sete pecados capitais.

Segundo a Divina Comédia, a famosa obra de Dante Alighieri, esta falta conduziria os gulosos até ao terceiro círculo do Inferno: um Lago de Lama. Lá repousariam em rebuliço, imersos no próprio vómito, os detentores de um apetite insaciável.

Todavia, nada disso parecia apoquentar os devotos que até ali se deslocavam em procissão.

Era, por isso, imperativo que tudo estivesse irrepreensível: desde a apresentação do local à quantidade de talheres que se abeiravam dos restantes utensílios igualmente imaculados.

O Gonçalo estava ainda a inteirar-se de todas as regras de etiqueta. Tinha acordado mais cedo do que o habitual, depois de uma noite instável provocada por uma ansiedade crescente.

Naquele dia, estrear-se-ia como garçon.

 

          E se sujo algum dos convidados? E se não consigo levar todos os pratos para a cozinha? Todos vão perceber como sou inexperiente e a Dona Célia não vai hesitar em despedir-me. “Não podes falhar, Gonçalo!”.

E se eu falho? Oh, já sei que vou falhar!

 

Durante a manhã, as mãos do rapaz desfaziam-se em suor. Os garfos deslizavam com a mesma ligeireza de uma criança prestes a ser projetada para as águas brandas da piscina armada no verão.

A hora aproximava-se ora lenta, como velozmente.

Não tardaria até que o salão estivesse repleto de glamour comprado na loja dos chineses. E aí, pensava ele, seriam as crianças a correr sem destino certo, os copos entornados, o barulho, o salve-se quem puder em busca da perfeição.

Precisamente quarenta e dois minutos antes de chegarem os primeiros clientes, o jovem de dezanove anos foi vestir o uniforme: uma camisa branca bem engomada, uma gravata preta e umas calças clássicas que desembocavam nuns mocassins da mesma cor.

Antes de sair do pequeno cubículo, olhou de esguelha para um espelho redondo, embaciado pelo vapor que a cozinha emanava. Viu nele o reflexo dos doze meses precedentes, uma retrospetiva onde cabia o pior momento de que se lembrava ter vivido.

As memórias tornaram-se cada vez mais nítidas ao recordar a tarde fatídica do dia onze de Março de dois mil e dezasseis.  

O seu pai, um homem alto e bronzeado, caíra acidentalmente de umas das pranchas que constituíam um estrado provisório.

Vinte metros em queda-livre que terminaram num bramido curto e seco.

A partir dali, todos os seus planos mudaram.

As prioridades seguiram um novo rumo que o tinham conduzido àquele momento: o momento que não permitia falhas. O seu dever era assegurar o sustento da sua mãe e das suas duas irmãs menores.

Agora, teria de ser ele o homem da família. Não havia tempo para deixar que os sonhos lhe toldassem a realidade que se estendia diante de si.

Tinha-lhe passado ao lado uma carreira brilhante como economista, disso estava certo. 

Era, aliás, precisamente por um valor que naquele momento se sentia angustiado, nervoso, nostálgico e triste.

Talvez um dia tudo voltasse a ser normal, disse, por fim, para si próprio.

Passou a mão pelo cabelo na tentativa de endireitar os caracóis suaves que pendiam delicadamente sobre as suas orelhas e sorriu com confiança o sorriso que treinou mais do que tudo o resto.

Seria discreto, educado, conveniente e falso. Falso como o da maior parte das pessoas que iria servir.

Depois, voltou-se, fechou a porta e desapareceu por detrás dela. Na cozinha, os colegas encorajaram-no, lançando palavras de incentivo e mostrando a sua disponibilidade para lhe prestar auxílio.

12h00. A dona Célia entregou-lhe a bandeja.

“Não podes falhar, Gonçalo!”

E ele saiu.

Eu estava cá fora com um vestido comprido e florido, maquilhada a preceito, sem preocupações.

E, mesmo sem saber, soube que o Gonçalo não falhou.

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