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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

"Estou Além"

"Estou bem

Aonde não estou

Porque eu só quero ir

Aonde não vou"

 

A melodia ecoava porta fora. Na rua do Rosário, as pombas depenicavam alguns bijus ressessos. A bica de água, imprópria para consumo, tinha um aviso que desapontava os transeuntes, enquanto duas ciganas se aproximavam para lhes ler a sina.

Tantos irmãos invejosos, companheiros infiéis e doenças a caminhar a passos largos para o âmago daquelas vidas quietas.

A mudança - diziam elas - depende da disponibilidade de cada um. Neste caso concreto, receio bem, dependia, sim, da sua disponibilidade financeira e, sobretudo, do seu discernimento.

A maior parte dos visados desprendia-se rapidamente daquela conversa meticulosamente ensaiada. Outros, por vezes, agarravam-se a uma fé já dormente: a fé que crê em tudo e nada questiona: a fé do desespero.

Eu estava sentada num banco de jardim vulgar.

 

Trazia pouco mais do que os meus pensamentos e já esse fardo me estafava. Do meu lado direito, um livro de capa dura aborrecido e um pacote de bolachas entreaberto.

Sei que, se pudesse, teria roubado algumas daquelas nuvens para que, ali, fossem almofadas das minhas memórias, mas o sol estava bem alto e os meus cabelos esvoaçavam ao sabor das minhas incertezas.

E, do outro lado da rua, o som de um acordeão molanqueiro embatia no estado de ansiedade que, aparentemente, nem eu nem o António Variações conseguíamos dominar. Ouvia-se, esporadicamente, o chocalhar de pequenas moedas de cobre num pequeno prato, que outrora servira de suporte para um vaso de orquídeas.

E nem mais um som percetível habitava dentro de mim.

Daquela casa com quintal, extraía-se a infância de um ser vivo pelas colunas ruidosas de um rádio anacrónico.

Estava além!

À procura de quem nunca tinha visto. 

"Quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci"

 

Ninguém apareceu para me olhar nos olhos. Ninguém me estendeu a mão e me pediu para dançar. Ninguém parou o mundo ou o sino da capela, mas alguém parou de cantar.

E eu, estática, repeti em loop aqueles versos porque não sabia para onde ir nem onde ficar. Não era igual aos outros. Sentia-me incompreendida, indiferente para os demais, estranha ao meu próprio corpo, estranha ao meu próprio eu.

Não sei lidar comigo. Ainda hoje.

Mas, apesar disso? Lamento: “Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar”.

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