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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

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Maestrina

 

O céu estava sem forma, pintado por um cinzento claro e baço. Proeminentes, permaneciam os troncos de uma ramada descoberta pelas vicissitudes de um outono caduco.

O contraste permitiria, certamente, que o olhar se detivesse no estendal perfeitamente alinhado com a interface de duas tonalidades distintas.

Ela tinha parado: suspensa no tempo, embebida pela incerteza de existirem flores para lá da intensa neblina. E a noite ainda há pouco era criança, mas ela já via de outra forma a claridade.

 

Deixava que o vento penetrasse todos os seus poros e que o orvalho escorresse pelas pétalas dianteiras. Gostava de ter frio por deixar que o vento lhe acariciasse as maçãs do rosto pela manhã. Pensava em encher os olhos, em guardar tudo para si, em inalar o mundo de uma só vez, em sentir os pequenos detalhes e os parapeitos húmidos, um tanto ou quanto condensados.

Atrás dela, a melodia estimulava as sensações, era protagonista daquele momento: daqueles instantes fugazes em que a paz se apoderava do espírito.

E, no entretanto, as colcheias de um caminho por desenhar escapuliam-se das pautas para o bloco de notas à retaguarda.

E ela não parava... Escrevia sem dar conta de como se transpunha para o papel, de como era maestrina do seu próprio pensamento.

Era impossível domar os instintos. Impossível não querer beber da adrenalina que o fruto proibido apetecia.

Impossível não sentir a discrepância das suas vozes, perceber a dimensão da sua tessitura e a importância de todos os instrumentos da orquestra. Como os sentimentos na vida.

 

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