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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

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O bater das asas

 

Sempre o mesmo tema: conversa fiada, passatempo de quem quer conhecer mais do que o seu umbigo enfarruscado. A garrafa vai a meio e a sabedoria destroca-se em goles profundos.

Vê-se o horizonte e o adormecer ao relento das setes vidas felpudas. Vê-se o bater das chinelas rua abaixo e rua acima.

Apregoam-se os melhores negócios e a cidade silencia, varre o mundo e a certeza; o tempo e a calmaria, a luz e a nostalgia.

Uma vida de trabalho, de pele tisnada pelo sol e pelos filhos.

A fruta apodrece e de amarelo se pintam as alfaces outrora viçosas.

O ciclo da vida: o bater das asas.

Rodopiam hemisférios e a noite cai com as estrelas na solidão da maresia, em pleno ventre de emoções.

Ficamos por aqui a adivinhar o nome das constelações sem saber o que fizemos nem por onde andamos. Como se tudo fosse o acordar de um sonho onde a realidade se torna impercetível, como se tudo fosse aquilo que vemos e nada mais, como se a lua fosse uma única face e o resto indiferença.

Sempre o mesmo tema: as questões existenciais, as vontades de tudo e as ações em nada. A futilidade característica, a proteção na mentira, na omissão de um mundo diferente entre paredes e assoalhadas.

Um dia, chegaram até a inventar a humanidade, num desses tempos parados de espera. E, hoje, quando o sol deu de caras comigo eu percebi que ela existe, mas não é nossa: é de quem a espalhou sem a concretizar! E vai com o vento, move-se com o tempo: desaparece: volátil como os dias contados à sombra dos desejos. Humanidade para connosco, para com as nossas próprias vontades, para com o trilho que decidimos percorrer de mãos dadas com os pés e o corpo em deambulação incerta.

Nós mudamos e nós descobrimos. E nós não sabemos o que é Isto. Nós não estamos confortáveis com Isto. Isto que somos nós: sempre o mesmo tema. Sempre a mesma incógnita. Sempre os mesmos instintos. Sempre o mesmo dia e a mesma noite. Sempre as mesmas paredes.

Nunca as mesmas horas.

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