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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

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Os adultos do futuro

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          - Clara, dá um beijo à prima.

A Clara não responde.

          - Clara, estás a ouvir o que a avó te está a dizer?

E a Clara, com quase sete anos, não responde.

          - Vou tirar-te o tablet e tu vais ver!

E o pescoço sobressaltado da Clara ergue-se repentinamente. Os olhos grandes e negros da Clara embatem nos olhos pequenos e autoritários da minha tia.

A Clara dá pulinhos ansiosos e depois corre para mim. A sua pele macia de criança desliza sobre as maçãs do meu rosto e, entretanto, a vida real dura pouco mais do que um segundo.

A sua avó, satisfeita, sorri. Pergunta-me aquilo que as tias costumam perguntar e eu respondo aquilo que é suposto responder.

Depois, o diálogo, estagnado pelos temas habituais das conversas de circunstância, empurra-me para um banco de madeira. Sento-me e ali me deixo ficar esquecida.

Assisto às conversas que se violam e precipitam, sem nunca me pronunciar, e observo a desenvoltura impressionante da minha prima que ora tira fotografias, ora joga a qualquer coisa que eu acredito, com esta idade, não saber sequer como jogar.

Pouco lê. Vai pressionando alguns botões de forma aleatória e os seus desejos lá vão sendo concretizados.

Perante o meu espanto, a minha tia não hesita em mostrar o orgulho que as conquistas virtuais da minha prima lhe provocam e, aí, eu percebo como aquela criança é inteligente e como o seu futuro está bem encaminhado.

 

          "Desenrasca-se bem, não desenrasca? No outro dia, vê lá, aprendeu a mexer num botão e bastou dizer umas palavras para aparecer tudo o que ela queria. Estas crianças, hoje em dia, já nascem com os olhos bem abertos."

 

Eu sorri e acenei afirmativamente e, depois desta observação, pus-me a pensar se não estaríamos nós, enquanto educadores, a contribuir para o fechar desses mesmos olhos.

Atualmente, todas as crianças são “calminhas”.

Acabaram-se os “terroristas” e a praga dos “bichos-carpinteiros”: esses demónios exorcizados pela monotonia de um ecrã de várias polegadas.

Os miúdos já não reagem aos estímulos que o mundo real tem para lhes oferecer e é raro, nos dias que correm, encontrar por aí joelhos esfolados. Os olhos estão sempre iluminados por um mundo à parte, fácil de controlar.

Sentem-se saudades dos relatos intermináveis dos primeiros dias de aulas, do jogo da macaca ou de um caça ao tesouro, de um almoço sem sossego ou de uma birra junto à secção das bolachas no supermercado.

E, no entanto, lá fora, ouve-se o silêncio.

Diria que mesmo sem dados estatísticos seríamos capazes de lamentar o défice da taxa de natalidade.

O futuro assenta sobre a introversão.

Assistimos a um sedentarismo invulgar e a uma manifesta dificuldade no desenvolvimento de relações interpessoais.

Não se contestam ideias nem se contrapõe argumentos.

Habituámos as novas gerações a uma facilidade a que o mundo real ainda não nos acostumou, a algo que não existe, efetivamente.

O exemplo dos pais para com os seus filhos demonstra isso mesmo, reflete a rendição do ser humano a este novo mundo ilusório no qual, aos poucos, vamos criando a nossa própria cúpula, atrofiando qualquer capacidade de reação face a situações que nos colocam em posições desconfortáveis.

O vírus vai-se disseminando…

Eu lanço uma última investida.

          - Clara, vamos conversar! Conta-me lá, gostas de andar na escola? Já fizeste muitos amiguinhos?

E a Clara, prestes a passar mais um nível, não responde. Entretém-se bem sozinha!

Está a crescer…

A crescer sem desconfiar que a vida também gosta de brincar e que é no mundo real que se encontram as ferramentas necessárias para vencer o maior e mais prazeroso de todos os jogos.

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