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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

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Perdão

 

          - Um centavo pelos teus pensamentos.

A voz amena surgiu acompanhada pelo toque leve de uma mão que agora pousava, subtilmente, sobre os ombros justos da loira de olhos cor de mel.

O homem alto torneou as linhas do banco de jardim e sentou-se junto daquela figura misteriosa, envolta em vidas passadas e premonições futuras.

Estava escuro e reluziam ao longe pequenas fachadas de néon. O ar abafado enfatizava o cheiro nauseabundo da massa das farturas imersa em óleo vegetal e, de frente para o lago iluminado pela alvura da lua cheia, dilaceravam-se uns olhos paulatinamente.

Os suspiros tornavam-se audíveis, iam de encontro ao peito do recém-chegado como passarinhos extraviados em busca de uma asa afeita que os protegesse.

 

Ouvia-se o tumulto de um ser silencioso, aviões que sobrevoavam sem pressa, vozes ao longe: histéricas, desenfreadas, sem direção.

De repente, na languidez daquela noite cálida, ouviu-se um murmúrio.

         - Quando eu era mais nova, - disse, por fim, a rapariga – não gostava muito dela.

Fez uma pausa e, visivelmente emocionada, prosseguiu:

        - Lembro-me de uma vez lhe ter dito que ela viera ao mundo para roubar o meu lugar. Sabes, fazia-me confusão ver que todas as atenções se voltavam para ela: a mais nova da família, a menina-prodígio para a qual todos anteviam um futuro brilhante. Eu era indiferente, completamente indiferente. Não tinha graça e a minha opinião não existia nem importava.

Nunca lhe disse o quanto a odiava por, ainda assim, tanto a amar!

 

Enquanto se recompunha, rodou o corpo, enlaçou os próprios joelhos trémulos e fitou-o:

          - Eu sei o que estás a pensar!

Cabisbaixa, parou por um segundo e todos os seus remorsos se materializaram naquele instante. Chorou copiosamente sem alento, enquanto reiterava, aos soluços, que era uma pessoa horrível e desprezável.

A noite ia caindo em lençóis de água, à medida que a distância separava o sangue do seu sangue.

Àquela hora, um hemisfério desvinculava a Ana da Eduarda. Talvez um mundo inteiro...

E nunca o dia em que os seus pais lhe contaram que a Eduarda era sua filha adotiva lhe pareceu tão nítido.

Naquela altura, não fora capaz de compreender, sentira-se insuficiente para o amor que mereciam aqueles corações, sentira-se traída.

Mas, agora ela percebia! Tinha passado uma vida inteira a rejeitar uma vida inteira rejeitada.

E era tarde! Tarde para as palavras e para o perdão.

A Eduarda descobriu, acidentalmente, a sua identidade. Ouviu o egocentrismo da Ana ressoar no alpendre e decidiu partir.

Deixou o seu “eu” despir-se de si mesmo para conhecer o berço em que tinha nascido. Desejou que a Ana fosse feliz sem si, que mais nenhum rapaz a trocasse pela sua figura esbelta, que mais ninguém lhe demonstrasse amor. Na verdade, pensou, nunca o merecera. “Sou do mundo e de quem me quer. Quero-me”.

Toda a sua vida fora uma mentira e, aos seus olhos, fora esse mesmo embuste que destruiu a felicidade da pessoa que mais admirava. Agora, precisava de perceber porquê, mas as respostas, sabia ela, tardariam a chegar depois de ter descolado e rasgado os céus.

E era da terra que a Ana a contemplava, daquele lugar que se despedia.

          - Diogo, não a mereço. Nunca a mereci. Nem esta dor é digna da tua companhia.

Fez uma pausa.

         - Obrigada por teres vindo. Hoje percebo que talvez sempre tenha sido eu o centro das atenções. Talvez, para mim, só existisse eu na minha vida. E, hoje, por incrível que pareça, sou só eu que existo realmente nela.

Precisava mesmo de…

 

Sem saber o que dizer, o rapaz aproximou-se e envolveu-a num abraço demorado.

          - Precisavas de alguém que te ouvisse. Sabes, Ana, - disse, pousando as suas duas mãos no rosto dela, enquanto vislumbrava a profundidade da sua mágoa – tu não sabes o que eu estou a pensar, mas sabes o que a tua irmã está a sentir.

Talvez tenha sido a incompreensão do vosso amor que, a partir de hoje, lhe permitirá redescobrir-se.

Ela volta.

Pode ser tarde para as palavras, mas nunca o é para o perdão!

 

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