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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

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Raríssimas: Um flagelo para o voluntariado em Portugal

(Paula Brito e Costa | Fotografia: Álvaro Isidoro)

 

Durante esta semana, Portugal assistiu à estreia da nova novela da TVI: uma excelente produção com um elenco de luxo e um guião bastante promissor.

O sucesso da narrativa tem sido, inclusive, noticiado pelos restantes meios de comunicação social e prevê-se que estejam já encomendados mais episódios para dar continuidade à trama protagonizada por Paula Brito e Costa.

Dinamismo não falta no escândalo da Raríssimas e a prova disso mesmo é o facto de, em apenas uma semana, a investigação da jornalista Ana Leal ter rendido ao país não só duas demissões, como também depoimentos verdadeiramente vergonhosos.

Mas, vamos por partes nesta que é uma resenha pessoal dos últimos acontecimentos.

 

No passado dia 13 de Outubro, aquando do Congresso Nacional dos Farmacêuticos, tive a oportunidade de ver e ouvir a Presidente da Raríssimas, enquanto oradora do evento.

A sua postura simples, o seu discurso eloquente, a sua história de vida e os princípios e valores que colocou, meticulosamente, em cada palavra que proferiu não deixaram ninguém indiferente. Eu própria me emocionei! Não consigo imaginar a dor de perder um filho. Não sei como a vida de uma mãe prossegue quando lhe é retirada uma parte tão grande de si e, por isso, enquanto a ouvia, enternecida, perguntava-me sobre quais seriam os limites daquele amor, quais seriam as barreiras daquele coração.

O sofrimento à flor da pele, o incentivo a olharmos mais para os outros do que para nós mesmos, a fazermos a diferença com um pequeno gesto…

Era tão bonito… Tão tocante perceber que alguém, lidando com a sua dor, tudo estaria disposto a fazer para atenuar a dor dos outros.

Olhei-a com admiração, como um exemplo de força, coragem e solidariedade. Como alguém que, ao transformar vidas, se sentia vingado e que, aos poucos, se ia restabelecendo.

Falei dela aos meus pais. Falei-lhes de uma grande mulher onde vi verdade. Uma verdade sem espaço para a fraude, para o cinismo, para a arrogância ou para uma qualquer ambição desmedida que não fosse a de ajudar o maior número de famílias possível.

E, afinal, tudo não passava de um embuste, de uma fachada, de um cartão-de-visita…

Fiquei chocada e triste. Revoltada com a sociedade que temos vindo a construir, repleta de pessoas vazias onde a dignidade parece ser algo banal.

Será que existem realmente pessoas bem-intencionadas? Será?

“As aparências iludem”, disse-me a minha mãe. “Quem vê caras, não vê corações”.

Acredito que, nestes casos, só possamos, de facto, ver os rostos manchados pelo vil interesse. Não há nada mais para além disso. Somos uma sociedade vestida de aparências, corrompida pelo desejo de ter mais e significar tão pouco.

Ao longo desta semana de especulações, percebeu-se que aquela peça foi uma pequena centelha que incendiou a indignação de um país inteiro. Existem provas e existem palavras e essas não se podem desmentir. O que dizer de uma pessoa que defende que “não somos todos iguais”? O que dizer de alguém que se julga tão superior aos outros e que dá a cara por uma instituição que, supostamente, preconiza exatamente o contrário? O que pensar de alguém que acredita veementemente que a sua vida é uma monarquia e que as pessoas que a rodeiam a ela são submissos?

Por fim, que ilações retirar acerca do carácter desta mulher? Que conclusões extrair quanto à retidão deste governo?

Lamento, que o povo português continue a encher os bolsos destes indivíduos, que seja enganado constantemente e que continue a assistir a uma Justiça totalmente manipulada, parcial e ineficaz.

Todavia, agradeço o facto de existirem seres humanos capazes de denunciar estas situações. Seria mais fácil fechar os olhos e ignorar tudo o que se sabe. Não adviriam quaisquer consequências desse comodismo. Mas, se hoje tentamos entender o que realmente se passou, é porque houve alguém que se preferiu “atirar aos leões”, pelo que, não posso deixar de congratular a jornalista Ana Leal e toda a sua equipa por terem tornado todas estas ilegalidades do domínio público e por terem dado voz a quem há muito se tentou expressar, mas se viu ser, constantemente, silenciado.  

Quanto a mim, poderia continuar a escrever sobre o que penso. Poderia expressar a minha tristeza face a tudo isto. Já muitos o fizeram e tantos outros, certamente, o farão, mas sei que em nada poderei contribuir para a resolução deste caso.

Contudo, gostaria de terminar destacando algo que me parece ser uma consequência extremamente grave da gestão danosa desta IPSS.

Em Portugal, felizmente, existem muitas instituições de solidariedade que se movem pelos motivos certos e que lutam, diariamente, por um mundo melhor. A maioria delas sobrevive apenas através da generosidade das pessoas que se preocupam com os outros, sem receberem qualquer apoio por parte do Estado.

O facto é que esta situação veio comprometer tudo isto! Arruinou não só o bom nome da Raríssimas, como tem vindo a descredibilizar todos os outros projetos de solidariedade a decorrer em Portugal. E isso, ninguém tem o direito de fazer! E “só” isso deveria ser motivo de punição!

Existem realmente pessoas que dependem da boa vontade do outro. Existem realmente associações fundadas para promover a igualdade e para melhorar a condição de vida de muitos seres vivos. E, sim, eu continuo a acreditar que os pequenos gestos fazem, de facto, a diferença!

Esta semana, enquanto voluntária de uma associação, tentei interpelar muitas pessoas de forma a dar-lhes a conhecer o nosso projeto e a explicar-lhes como tudo se processa. Esta semana, ninguém me ouviu. Ninguém parecia acreditar no que eu estava a dizer e o paradigma mudou completamente desde a última ação de solidariedade que eu tinha realizado, precisamente duas semanas antes.

Senti que, por mais que quisesse, não conseguia estabelecer uma relação de confiança ou alguma empatia com a maior parte das pessoas que abordei e, quando tentava perceber o motivo de não me quererem ouvir, a resposta era sempre a mesma.

As pessoas estão cansadas. Cansadas da mentira e desta imposturice barata. Todos nós temos dificuldades e é no meio desses obstáculos que, por vezes, mais nos lembramos do outro. Há quem pouco tenha para si e continue a contribuir com donativos e a apoiar as mais diversas causas. E qual é o resultado desse gesto altruísta? Uma mão cheia de nada. Figuras que lhes entram pela casa dentro com o desplante de quem se finge indignado com o seu país, de quem mente sistematicamente, de que pedem indeminizações, de quem não é coisa nenhuma.

Não interessa quem eu sou. Eu sou igual a todos os outros, sou a cara de uma verdade incerta.

E que moral tenho eu, com 20 anos, para pedir que acreditem em mim e na associação que represento? Nenhuma. Sei que, se estivesse do outro lado, teria a mesma sensação de desconfiança.

Sei também que os tempos que se avizinham serão difíceis para os voluntários e, acima de tudo, para quem precisa de ajuda.

Mas, não podemos desistir! Temos de continuar a tentar melhorar a vida de alguém. Podemos receber palavras menos simpáticas, sentirmo-nos desmotivados, mas se tudo isso fizer a diferença na vida de uma pessoa, então tudo isso valerá a pena.

Há alguém que precisa de mim naquele lugar. Há alguém que precisa de ti. O mundo precisa de NÓS!

A vida é muito mais do que gambas, vestidos, automóveis e viagens. Luxo é poder ver o sorriso estampado no rosto de alguém. Riqueza é fazer da felicidade uma missão. Espalhar o amor.

E garantir que, como diria Edilson Bitar, “não existe solidão quando se é solidário”.

 

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