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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

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Rescaldo de um mês em stand-by

 

Janeiro é um mês de incertezas e de sentimentos mistos. Se, por um lado, queremos iniciar o plano que traçamos para a nossa vida nos últimos dias do ano anterior, por outro, acabamos por nos aperceber de que, inevitavelmente, muitos dos nossos objetivos acabarão por ficar numa folha de papel, esquecida algures no fundo da gaveta.

Nos primeiros dias, do primeiro de doze capítulos, perdoamos os nossos desleixes alimentares e a preguiça que existe relativamente à prática de exercício físico. As metas começam, assim, a ser encostadas para um canto e nós vamos continuando a viver da mesma forma conformista e rotineira, tal como fazíamos até então. A verdade é que, mal o ano começa, percebemos que, se calhar, a febre da mudança se está a desvanecer e com ela a nossa vontade de sorrir, todos os dias, para o mundo. Voltamos a constatar que, de vez em quando, chove e que não podemos escapar aos dias cinzentos.

Para a generalidade dos estudantes do Ensino Superior este mês é também sinónimo de abdicação. A “vida” fica praticamente em stand-by e é hora de colocar um travão nos almoços demorados de família, nas saídas com os amigos, nas idas ao cinema ou nos serões na companhia de uma boa música ou de um livro do nosso interesse.

 

O desespero começa a surgir, aos poucos, disfarçado de sensações como a ansiedade ou o nervosismo. Sentimos a pressão de obter bons resultados, de não desiludir as pessoas que depositam toda a sua confiança em nós e de não deixar cadeiras em atraso.

No meu caso, o stress a que estou sujeita deixa sequelas nas mais diversas áreas da minha vida e coloca indubitavelmente em causa o meu bem-estar.

Desde logo, a minha alimentação passa a ser muito mais desregrada e os meus hábitos começam a ter em conta uma necessidade de “compensação” face ao meu estado emocional. Os dias são passados na biblioteca entre livros, apontamentos e sebentas e o movimento é praticamente inexistente. As noites são mais curtas que o habitual e nem sempre o período de sono é contínuo e de qualidade. Tudo isto faz com que, naturalmente, o corpo se ressinta e apresente sinais de exaustão. Pessoalmente, as unhas começam a quebrar, as olheiras a falar por si e o aspeto da própria pele a mudar radicalmente. A frequência com que me surgem aftas é abismal e as dores de cabeça parecem não dar tréguas.

O tempo vai passando, a angústia sendo cada vez maior e, chego a um ponto em que, à semelhança da maior parte dos meus colegas, coloco tudo em causa: a minha vida, os meus verdadeiros desejos, o curso que frequento e aquilo que sou.

Afinal, até que ponto valerá a pena? Será que ficar neste estado é saudável para mim e para as pessoas que me rodeiam? Será que o modelo de ensino está de facto a contribuir para a formação de profissionais exemplares, quando a nossa saúde física e mental é constantemente posta à prova?

Ninguém me disse que este caminho iria ser fácil. Foi o que escolhi para a minha vida e continuo a tolerar todas as consequências negativas que dessa opção advêm. Acredito que nada é garantido e que, pela vida fora, teremos de enfrentar desafios bastante exigentes, para os quais levamos já uma certa preparação.

Todavia, como seres humanos que somos, temos o direito a ser tratados com respeito e seriedade e isso, lamentavelmente, nem sempre se verifica. “A vida não é justa”, dizem-me muitas vezes. E eu sei que não é, infelizmente! Mas, acredito que a educação é a única ferramenta que pode mudar esse paradigma.

A informação transformada em verdadeiro conhecimento é a chave para podermos ser pessoas mais livres e sensatas porque não basta sermos detentores de todo o conhecimento teórico se, na prática, não sabemos lidar com o outro, se não conseguimos respeitar as suas barreiras e as suas próprias vontades e convicções ou se estamos dispostos a tudo para vingar e sermos bem-sucedidos.

O acesso à educação é, ainda hoje, um luxo que muitas crianças gostariam de poder ter e, infelizmente, é algo cada vez mais banalizado.

Talvez fosse bom ter como objetivo marcar a vida de alguém, mudar a sua forma de pensar ou de dizer tudo com um simples silêncio.

Quão maravilhoso seria se nos deixassem voar e explorar as nossas ideias ao invés de nos quererem formatar para um sistema cada vez mais corrompido? Quão enriquecedora poderia ser a diferença e o debate de pontos de vista díspares?

Eu percebo que algo está errado quando aceito, sem contestar, o que se passa à minha volta. Chamem-me sonhadora ou ingénua!

Nada pode restituir esta sensação de poder agarrar numa caneta e escrever... Este tempo para ouvir os sons da natureza ou para experimentar novas receitas. Nada pode ser melhor do que este compromisso com a minha paz de espírito, junto dos meus.

Nada é mais prazeroso do que deixar viver dentro de mim outras facetas. Eu sou estudante, mas não sou só isso, tal como as mulheres que são mães o não são somente.

O verdadeiro sentido Disto é podermos viver a nossa esquizofrenia sem que nos limitem os pensamentos. No entanto, não deixa de ser verdade que é quando estamos “presos” que encontramos o nosso “caminho de voltar”.

Estas são as meras palavras de um rescaldo. De dias e dias longe da luz natural ou da força do vento.

Nem tudo é mau quando visto de fora, mas nem tudo pode assentar nos mesmos padrões porque, como é óbvio, nem todas as realidades se baseiam nos mesmos princípios e é esse tipo de preconceito, por parte da sociedade, relativamente aos estudantes universitários (por exemplo) que muitas vezes contribui para a sua descredibilização. Pena é que sejamos nós o futuro de um país que não está bem. Porque por mais que Portugal saia do “lixo”, o lixo não sai de Portugal e alguém terá de varrer esta poeira, onde a maior parte da miséria se encontra alojada na nossa própria mentalidade e onde, cada vez mais, “é olho por olho e dente por dente”.

 

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