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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Sem Abrigo

 

Tens as roupas sujas e gastas, o cabelo grisalho sem forma ou arrumo, a mão esticada sem convicção.

Há dias que te cortaram a água. Dizem que setembro foi um mês quente e outubro lá lhe vai seguindo os passos, prolongando tal proeza.

Para ti, tanto faz...

Gostas pouco de seguir as tendências: és irreverente! Crias a tua própria moda e, às vezes, como ela, és o último grito: aquele que a madrugada abafa e que as tuas próprias forças não projetam. As olheiras não te incomodam. Aliás, sempre tiveste um fraquinho por olhos esbugalhados, repletos de traços promíscuos.

E de cheiros? Ah, ninguém percebe tanto como tu! Desde que descobriste esta nova forma de viver que não largas o teu novo perfume por nada. Encontraste, finalmente, um que se adequa à tua verdadeira essência, criado a partir dos extratos de dias e dias e noites sem luar: a doce fragrância que revela os traços da tua personalidade e a convicção com que acordas todos os dias à beira de um pedaço de cartão, dos que, outrora, fizeram parte dos caixotes descartáveis de que as pessoas se desfazem a torto e a direito.

Os que passam mal te veem. És já parte daquela rua em decadência - um habitué, para os mais afrancesados!

O teu nome é da família dos álcoois, dos estupefacientes ou, resumindo tudo isto, dos portadores de HIV. Mas, felizmente, ainda existem transeuntes com bom coração. Basta olhar para ti para ver que nenhum desses é o teu apelido. Tu és o Triste-que-não-quer-trabalhar-mas-sim-viver-à-custa-dos-outros. É isto, não é? Brasão de família!

Todos sabem bem como é a gente da tua laia: "muita parra e pouca uva". Todos conhecem os teus motivos, a tua história, o teu passado, a tua vida. Todos percebem o vagabundo que és! Não te veem a cara, mas acreditam saber-te o coração.

 

Estamos quase no natal...

E eu pergunto: como te portaste? Como foi somar os dias e as sobras? Olhar para cima, para os que te olham de cima? Olhar para o mundo que é, para ti, tão baixo.

Hoje, passei por ti e não dei conta. Talvez o autocarro estivesse a passar ou existisse uma mensagem por ler. Talvez as compras não pudessem esperar ou fosse somente a pressa do anoitecer: a merda dos dias pequenos. 

Menos esmola e mais relento. 

Estamos quase no natal e o teu prato já tão cheio. Avultados donativos e nem sinal de um gestor ou de um prato de sopa. 

Não sei o que te faz mais falta... Mas, tens de guardar do "riso para a chora" porque, não tarda, apagar-se-ão as luzes do presépio e quando o inverno te sugar as forças e a neve te limpar as botas, semicerrarás os olhos com vontade e preferirás desistir. 

Quererás deixar de ser a personagem das fotos "artísticas" a preto e branco. Ansiarás que não te olhem com desprezo e que o comum dos mortais não fuja da tua nobre companhia. Terás novos caprichos e sonharás, um dia, recuperar a dignidade que os outros julgam teres deixado na calçada.

Nesse dia.

No dia em que alguém te olhar para dentro e te invadir. No dia em que o gelo que te lacera o ventre se derreter pelo bafo de quem te achar. As mãos entrelaçadas, pretas e feridas. A miséria que é verdade. Um ser humano: que se perdeu ou foi perdido, com ou sem vontade de se encontrar.

Um de nós: ao abrigo dos que passam.

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