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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Dr. Google

 

As novas tecnologias vieram revolucionar a nossa forma de estar na vida.

Tenho-me vindo a aperceber de como estas ferramentas têm impacto no nosso quotidiano e influenciam as escolhas e os hábitos que adotamos e, a verdade é que, hoje em dia, escrevendo as palavras certas no motor de busca, temos acesso a um sem fim de informação que nem sempre corresponde à verdade.

A Internet pode ser vista como um refúgio ao qual a maioria dos cidadãos recorre para resolver quaisquer problemas. Quando as pessoas estão doentes ou detetam algum sintoma minimamente suspeito, o primeiro aconselhamento que procuram é do Dr. Google. As suas consultas são gratuitas, rápidas e apresentam uma lista completa, na qual consta um diagnóstico e as possíveis causas, sintomas e tratamentos da respetiva “sentença”.

 

A luz da esperança

 

Chamava-se Sofia. Tinha medo da trovoada e da celeridade do vento. Era pequena perante as tempestades, embora existissem provas suficientes da sua valentia estoica. Tinha pouco mais de quatro anos e os seus olhos de avelã eram feitos de promessas.

Encontramo-nos numa enfermaria, num dos meus internamentos recorrentes.

Naquele quarto estéril, galgamos os jardins da floresta que criamos, fomos as amigas que dividem as tristezas e partilhamos tantos quadros clínicos como bonecas dúcteis que, tão metodicamente, descabelamos.

A preocupação dos meus pais inundava aquele compartimento de amor, enquanto as nossas alucinações se materializavam, enquanto as nossas camas tremiam e o suor se hospedava nas profundezas de dois corpos cansados, entregues ao mundo assético.

 

Perdão

 

          - Um centavo pelos teus pensamentos.

A voz amena surgiu acompanhada pelo toque leve de uma mão que agora pousava, subtilmente, sobre os ombros justos da loira de olhos cor de mel.

O homem alto torneou as linhas do banco de jardim e sentou-se junto daquela figura misteriosa, envolta em vidas passadas e premonições futuras.

Estava escuro e reluziam ao longe pequenas fachadas de néon. O ar abafado enfatizava o cheiro nauseabundo da massa das farturas imersa em óleo vegetal e, de frente para o lago iluminado pela alvura da lua cheia, dilaceravam-se uns olhos paulatinamente.

Os suspiros tornavam-se audíveis, iam de encontro ao peito do recém-chegado como passarinhos extraviados em busca de uma asa afeita que os protegesse.

 

 

"Estou Além"

"Estou bem

Aonde não estou

Porque eu só quero ir

Aonde não vou"

 

A melodia ecoava porta fora. Na rua do Rosário, as pombas depenicavam alguns bijus ressessos. A bica de água, imprópria para consumo, tinha um aviso que desapontava os transeuntes, enquanto duas ciganas se aproximavam para lhes ler a sina.

Tantos irmãos invejosos, companheiros infiéis e doenças a caminhar a passos largos para o âmago daquelas vidas quietas.

A mudança - diziam elas - depende da disponibilidade de cada um. Neste caso concreto, receio bem, dependia, sim, da sua disponibilidade financeira e, sobretudo, do seu discernimento.

A maior parte dos visados desprendia-se rapidamente daquela conversa meticulosamente ensaiada. Outros, por vezes, agarravam-se a uma fé já dormente: a fé que crê em tudo e nada questiona: a fé do desespero.

Eu estava sentada num banco de jardim vulgar.

 

Alice

 

Uma noite quente é um turbilhão de sensações. Os lençóis enroscam-se nas pernas esguias e a boca fica seca como a roupa que se estende do avesso perante o sol.

Ao primeiro feixe de luz, que penetre transversalmente a persiana mal corrida, a Alice, encolhida numa cama com dossel, emite o som próprio de quem estremunha sem querer.

A preguiça assoma e o alarme retorque. Quando a melodia sardónica ecoa pelo quarto, até então tácito, sente-se uma revolução dentro daquele peito descoberto.

Inicia-se uma luta sem alvos. Prevalece o esqueleto que se dobra e se distende. Permanece o tempo e a noite: os punhos no ar, interstícios de luz na escuridão.

E lá fora: uma superfície de silêncio. E lá dentro: o turbilhão, o turbilhão, o turbilhão.

 

"Eh, toiro!"

 

As touradas estão de volta à TVI, regressando à estação cinco anos depois da sua última transmissão.

Esta notícia está a incendiar as redes sociais e a gerar uma onda de indignação naqueles que defendem os direitos dos animais mais do que qualquer tradição. A revolta surge na sequência do anúncio que o canal tem vindo a publicitar, referindo-se à comemoração dos 125 anos do Campo Pequeno a decorrer no próximo dia 18 de Agosto.

Após uma breve consulta da página oficial da TVI, verifiquei que o evento consta na grelha de programação do canal generalista, o que significa que na próxima sexta-feira vamos assistir a um retrocesso na luta pelos direitos dos animais.

 

Entregue de bandeja

 

Depois de uma chuva de estrelas oculta, o sol penetrou lentamente nos escaparates que resguardavam pouco mais do que os excedentes do dia anterior.

O dia previa-se longo, quente e desgastante.

Era domingo: o dia abençoado para realizar qualquer cerimónia religiosa que acabaria ali, na prática de um dos sete pecados capitais.

Segundo a Divina Comédia, a famosa obra de Dante Alighieri, esta falta conduziria os gulosos até ao terceiro círculo do Inferno: um Lago de Lama. Lá repousariam em rebuliço, imersos no próprio vómito, os detentores de um apetite insaciável.

Todavia, nada disso parecia apoquentar os devotos que até ali se deslocavam em procissão.

Era, por isso, imperativo que tudo estivesse irrepreensível: desde a apresentação do local à quantidade de talheres que se abeiravam dos restantes utensílios igualmente imaculados.

Os adultos do futuro

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          - Clara, dá um beijo à prima.

A Clara não responde.

          - Clara, estás a ouvir o que a avó te está a dizer?

E a Clara, com quase sete anos, não responde.

          - Vou tirar-te o tablet e tu vais ver!

E o pescoço sobressaltado da Clara ergue-se repentinamente. Os olhos grandes e negros da Clara embatem nos olhos pequenos e autoritários da minha tia.

A Clara dá pulinhos ansiosos e depois corre para mim. A sua pele macia de criança desliza sobre as maçãs do meu rosto e, entretanto, a vida real dura pouco mais do que um segundo.

A sua avó, satisfeita, sorri. Pergunta-me aquilo que as tias costumam perguntar e eu respondo aquilo que é suposto responder.