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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Equinócio

 

O outono traz-te a vida embrulhada.

Aos poucos, a luz vibrante vai-se dissecando e os tons amenos tecem dias menores.

Anoitecem as mantas no sofá e vem o frio sem corrente trespassar o corpo vigilante.

Sentes uma simbiose sem precedentes, as cores místicas do tempo e os sonhos a pernoitar.

O cheiro da castanha assada relembra-te o último arraial de verão. Inalas. Soube a pouco como a pouco sempre sabe mais uma primavera. Não há estações que não abram caminho ao misantropismo. As folhas caducas languidescem e a rotina surge entremeada.

 

 

Hoje, é a tua memória!

 

Para alguém que não se esquece,

 

Gostava de te poder dizer que vai ficar tudo bem e que, um dia, o teu coração sobressaltado encontrará paz: as portas da vossa casa já não estarão trancadas e poderás ir, sem medos, à tua vida. No entanto, tu sabes a verdade: a realidade que eu desconheço e não suporto sequer pressentir.

Não sinto o que tu sentes quando te lembras dos momentos que te roubam a esperança: os rasgos de lucidez, cada vez menos frequentes, o mundo que parece feito de ilusão.

E tu estás sempre ali, disposto a tudo para atenuar o sofrimento de quem vai sendo vítima de uma decadência em progressão. Alguém outrora vivo e feliz, ciente de si, dos seus sonhos, dos seus amores e das batalhas da vida.

Sei que te defraudaram a esperança na eternidade de cada memória. O Alzheimer já te subtraiu muitas lágrimas e todos os dias são um sorvedouro de emoções, como se o mundo fosse visto, vezes sem conta, pelo mesmo corpo, mas por nascentes distintas.

 

 

O bater das asas

 

Sempre o mesmo tema: conversa fiada, passatempo de quem quer conhecer mais do que o seu umbigo enfarruscado. A garrafa vai a meio e a sabedoria destroca-se em goles profundos.

Vê-se o horizonte e o adormecer ao relento das setes vidas felpudas. Vê-se o bater das chinelas rua abaixo e rua acima.

Apregoam-se os melhores negócios e a cidade silencia, varre o mundo e a certeza; o tempo e a calmaria, a luz e a nostalgia.

Uma vida de trabalho, de pele tisnada pelo sol e pelos filhos.

Crise dos 20

 

Tenho 20 anos.

No dia em que os celebrei quis escrever sobre mim num papel que empalidecesse e pudesse contar as histórias de uma rapariga que vivia perdida dentro de si.

Talvez o ponto de situação da minha vida fosse uma leitura irrelevante para uma avó de setenta anos, mas, a nostalgia que senti no dia do meu último aniversário, estaria certamente presente nos seus olhos: o coração do meu futuro.

E como seria ter coragem para olhar para trás? Como é, na verdade, ter coragem para olhar em frente?

Tenho 20 anos e não sei quantas incertezas cabem nos meus dias.

 

Maestrina

 

O céu estava sem forma, pintado por um cinzento claro e baço. Proeminentes, permaneciam os troncos de uma ramada descoberta pelas vicissitudes de um outono caduco.

O contraste permitiria, certamente, que o olhar se detivesse no estendal perfeitamente alinhado com a interface de duas tonalidades distintas.

Ela tinha parado: suspensa no tempo, embebida pela incerteza de existirem flores para lá da intensa neblina. E a noite ainda há pouco era criança, mas ela já via de outra forma a claridade.

 

 

Cartógrafa

 

O cheiro da terra molhada apoderava-se de todos os meus sentidos à medida que, cuidadosamente, descia a colina através de um carreirinho estreitamente bem desenhado, delimitado por marcos de pedra minuciosamente recortados pelo vento.

As nuvens moviam-se devagar e o meu cabelo unia-se por pequenas gotículas de um orvalho praticamente extinto.

Tinha uma mochila a cobrir-me as costas e uma vara de madeira robusta a acompanhar-me as passadas. Um mapa entrelaçado nos dedos e uma adrenalina aprazível a despontar pelo ventre.  

Era o mundo em vista por descobrir, o realizar do maior de todos os projetos: cartografar-me!
De olhos erguidos e corpo firme, segui o meu caminho sem destino: até onde o coração quisesse levar os pés, até onde os pés quisessem levar a alma.

E deixei de ter medo.

InstaStories

 

Talvez por dentro o sol se desdobre, seja parte repartida de si, poeira reluzente, intensidade, contraste e saturação.

Talvez o rio adormeça na margem, a lua seja nova e a maré um pouco cheia. Seja o pão a entrar para o forno, o cigarro apagado, a constelação em gravidade.

Talvez o medo assombre o teu descanso, o teu corpo recalcado, a tua mente entresilhada e deambules e bamboleies e voltes ao início da estrada.

Talvez por dentro o pleno seja vazio e disfuncional: irreconhecível como as figuras à mercê do nevoeiro.

Sonho Eterno

 

Quando me lembro de mim vejo o carvão aguçado das memórias baças: a lâmina fina, o sujo impregnado na fragilidade de traços imprecisos, a mistura de um horizonte distante e completo.

Não me lembro bem do toque dessas palavras amargas porque escorre em mim uma inquietude, uma vida alheia não promissora.

Às vezes, vejo o rodopio destes dias, olho à volta e tudo se assemelha ao que deixei passar.

A vida corre pelo riacho da precaução e nós desaguamos lentamente na solidão que nos entrelaça.

 

Algodão-doce

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Deixei de falar com o passado.

Lembro-me às vezes das nossas conversas, dos conselhos dados pelo espelho retrovisor e dos dilemas captados por uma lente ainda sem risco algum.

Existia eu na flor da idade e existia o banco de trás em pele preta, onde moravam três cintos que pouco apertavam e onde tudo se resumia a uns pequenos carrapitos desprendidos de infelicidades.

Eram os domingos a perder de vista em que ainda havia tempo para ir descobrir cidades: eu no meio de dois braços fortes, de duas mãos suaves, de dois seres que amo.

Parecia-me sempre tudo novo e a vida era um encanto. Até tenho saudades!