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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

A luz da esperança

 

Chamava-se Sofia. Tinha medo da trovoada e da celeridade do vento. Era pequena perante as tempestades, embora existissem provas suficientes da sua valentia estoica. Tinha pouco mais de quatro anos e os seus olhos de avelã eram feitos de promessas.

Encontramo-nos numa enfermaria, num dos meus internamentos recorrentes.

Naquele quarto estéril, galgamos os jardins da floresta que criamos, fomos as amigas que dividem as tristezas e partilhamos tantos quadros clínicos como bonecas dúcteis que, tão metodicamente, descabelamos.

A preocupação dos meus pais inundava aquele compartimento de amor, enquanto as nossas alucinações se materializavam, enquanto as nossas camas tremiam e o suor se hospedava nas profundezas de dois corpos cansados, entregues ao mundo assético.

 

Crise dos 20

 

Tenho 20 anos.

No dia em que os celebrei quis escrever sobre mim num papel que empalidecesse e pudesse contar as histórias de uma rapariga que vivia perdida dentro de si.

Talvez o ponto de situação da minha vida fosse uma leitura irrelevante para uma avó de setenta anos, mas, a nostalgia que senti no dia do meu último aniversário, estaria certamente presente nos seus olhos: o coração do meu futuro.

E como seria ter coragem para olhar para trás? Como é, na verdade, ter coragem para olhar em frente?

Tenho 20 anos e não sei quantas incertezas cabem nos meus dias.

 

Perdão

 

          - Um centavo pelos teus pensamentos.

A voz amena surgiu acompanhada pelo toque leve de uma mão que agora pousava, subtilmente, sobre os ombros justos da loira de olhos cor de mel.

O homem alto torneou as linhas do banco de jardim e sentou-se junto daquela figura misteriosa, envolta em vidas passadas e premonições futuras.

Estava escuro e reluziam ao longe pequenas fachadas de néon. O ar abafado enfatizava o cheiro nauseabundo da massa das farturas imersa em óleo vegetal e, de frente para o lago iluminado pela alvura da lua cheia, dilaceravam-se uns olhos paulatinamente.

Os suspiros tornavam-se audíveis, iam de encontro ao peito do recém-chegado como passarinhos extraviados em busca de uma asa afeita que os protegesse.