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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Falácia

 

Às vezes, olho para mim de lado.

Como um estranho que julga conhecer o turbilhão de pensamentos que, em passos largos, se dissolvem por entre rotinas cruzadas e transeuntes incomuns.

Às vezes, até sinto que o que sou é pouco meu porque me é estranha aquela sensação de estranheza.

E julgo, perante os dedos que se tocam, ser pouco mais do que uma defesa contra cada fragmento estilhaçado na penumbra: pedaços de sonho hipotéticos: utopias de banda larga.

Estou tão fora como dentro, desmembrada da fisiologia sem querer ir nem querer voltar.

E somam-se os dias: um valor absoluto e pesado do que perdi por não saber o que querer ganhar.

Tanta vida no Inverno. Tantas ondas e um mar inerte. Como eu...

Sem condições nem metafísica. Sem futuro nem presente.

Um eu doente. Da alma. Do soro que escorre em desalinho. Autoimunidade. Pelo cansaço escrito em prosa e a vida entoada em hino.

Sem Abrigo

 

Tens as roupas sujas e gastas, o cabelo grisalho sem forma ou arrumo, a mão esticada sem convicção.

Há dias que te cortaram a água. Dizem que setembro foi um mês quente e outubro lá lhe vai seguindo os passos, prolongando tal proeza.

Para ti, tanto faz...

Gostas pouco de seguir as tendências: és irreverente! Crias a tua própria moda e, às vezes, como ela, és o último grito: aquele que a madrugada abafa e que as tuas próprias forças não projetam. As olheiras não te incomodam. Aliás, sempre tiveste um fraquinho por olhos esbugalhados, repletos de traços promíscuos.

E de cheiros? Ah, ninguém percebe tanto como tu! Desde que descobriste esta nova forma de viver que não largas o teu novo perfume por nada. Encontraste, finalmente, um que se adequa à tua verdadeira essência, criado a partir dos extratos de dias e dias e noites sem luar: a doce fragrância que revela os traços da tua personalidade e a convicção com que acordas todos os dias à beira de um pedaço de cartão, dos que, outrora, fizeram parte dos caixotes descartáveis de que as pessoas se desfazem a torto e a direito.

No dia em que decidi parar o tempo

No dia em que decidi parar o tempo descobri os parques e o cheiro a terra molhada; bebi um café quente e embaciei o vidro da janela.

Soube logo que a perfeição era uma névoa parecida com a neblina da manhã, que, por vezes, o sol encandeava e que a chuva germinava a terra.

Nesse dia. O dia em que decidi parar o tempo.

Desci a rua sem pressa, respirando cada pedaço de existência remanescente. Os olhos presos no infinito. Passar por tudo, sentir tudo e não ver nada.

Caminhar.

 

 

Equinócio

 

O outono traz-te a vida embrulhada.

Aos poucos, a luz vibrante vai-se dissecando e os tons amenos tecem dias menores.

Anoitecem as mantas no sofá e vem o frio sem corrente trespassar o corpo vigilante.

Sentes uma simbiose sem precedentes, as cores místicas do tempo e os sonhos a pernoitar.

O cheiro da castanha assada relembra-te o último arraial de verão. Inalas. Soube a pouco como a pouco sempre sabe mais uma primavera. Não há estações que não abram caminho ao misantropismo. As folhas caducas languidescem e a rotina surge entremeada.

 

 

Hoje, é a tua memória!

 

Para alguém que não se esquece,

 

Gostava de te poder dizer que vai ficar tudo bem e que, um dia, o teu coração sobressaltado encontrará paz: as portas da vossa casa já não estarão trancadas e poderás ir, sem medos, à tua vida. No entanto, tu sabes a verdade: a realidade que eu desconheço e não suporto sequer pressentir.

Não sinto o que tu sentes quando te lembras dos momentos que te roubam a esperança: os rasgos de lucidez, cada vez menos frequentes, o mundo que parece feito de ilusão.

E tu estás sempre ali, disposto a tudo para atenuar o sofrimento de quem vai sendo vítima de uma decadência em progressão. Alguém outrora vivo e feliz, ciente de si, dos seus sonhos, dos seus amores e das batalhas da vida.

Sei que te defraudaram a esperança na eternidade de cada memória. O Alzheimer já te subtraiu muitas lágrimas e todos os dias são um sorvedouro de emoções, como se o mundo fosse visto, vezes sem conta, pelo mesmo corpo, mas por nascentes distintas.

 

 

O bater das asas

 

Sempre o mesmo tema: conversa fiada, passatempo de quem quer conhecer mais do que o seu umbigo enfarruscado. A garrafa vai a meio e a sabedoria destroca-se em goles profundos.

Vê-se o horizonte e o adormecer ao relento das setes vidas felpudas. Vê-se o bater das chinelas rua abaixo e rua acima.

Apregoam-se os melhores negócios e a cidade silencia, varre o mundo e a certeza; o tempo e a calmaria, a luz e a nostalgia.

Uma vida de trabalho, de pele tisnada pelo sol e pelos filhos.

Crise dos 20

 

Tenho 20 anos.

No dia em que os celebrei quis escrever sobre mim num papel que empalidecesse e pudesse contar as histórias de uma rapariga que vivia perdida dentro de si.

Talvez o ponto de situação da minha vida fosse uma leitura irrelevante para uma avó de setenta anos, mas, a nostalgia que senti no dia do meu último aniversário, estaria certamente presente nos seus olhos: o coração do meu futuro.

E como seria ter coragem para olhar para trás? Como é, na verdade, ter coragem para olhar em frente?

Tenho 20 anos e não sei quantas incertezas cabem nos meus dias.