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Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Pill of Words

Blog não sujeito a receita médica.

Venham daí essas uvas passas!

 

Nos últimos dias, as redes sociais em geral e a blogosfera em particular têm sido inundados pelos típicos "balanços do ano".

Sobre 2017, que hoje termina, escrevem-se as mais diversas publicações quer sobre as figuras do ano, os acontecimentos do ano ou mesmo os divórcios do ano. Na verdade, parece que todas as temáticas, mesmo as mais inusitadas, servem como um bom clickbait, numa altura em que surge também na vida da maioria dos astrólogos uma nova oportunidade de expansão das suas carreiras.

Hoje, no último dia do ano, também eu faço a minha retrospetiva, penso no que fiz em cada mês, no que conquistei e no tanto que ainda tenho para melhorar. Todavia, não reflito apenas hoje porque as minhas ambições não se regem pelas doze badaladas ou por mais uma volta completa da Terra em torno do Sol.

 

Isto do Natal

 

Quando pensamos no Natal viajamos para um lugar bem diferente.

Geralmente, esta é uma quadra que representa algo muito especial para cada um de nós: uma mistura de sentimentos únicos e um conjunto de valores que assumem proporções distintas, consoante a personalidade de quem os experiencia.

À medida que os anos vão passando, o próprio conceito vai sofrendo alterações, como uma mutação em resposta ao nosso desenvolvimento intelectual. Desmistificam-se inúmeras crenças e a importância de alguns costumes é questionada, até que aquilo que assumia particular relevância passa a ser algo insignificante.

 

 

Equinócio

 

O outono traz-te a vida embrulhada.

Aos poucos, a luz vibrante vai-se dissecando e os tons amenos tecem dias menores.

Anoitecem as mantas no sofá e vem o frio sem corrente trespassar o corpo vigilante.

Sentes uma simbiose sem precedentes, as cores místicas do tempo e os sonhos a pernoitar.

O cheiro da castanha assada relembra-te o último arraial de verão. Inalas. Soube a pouco como a pouco sempre sabe mais uma primavera. Não há estações que não abram caminho ao misantropismo. As folhas caducas languidescem e a rotina surge entremeada.

 

 

Crise dos 20

 

Tenho 20 anos.

No dia em que os celebrei quis escrever sobre mim num papel que empalidecesse e pudesse contar as histórias de uma rapariga que vivia perdida dentro de si.

Talvez o ponto de situação da minha vida fosse uma leitura irrelevante para uma avó de setenta anos, mas, a nostalgia que senti no dia do meu último aniversário, estaria certamente presente nos seus olhos: o coração do meu futuro.

E como seria ter coragem para olhar para trás? Como é, na verdade, ter coragem para olhar em frente?

Tenho 20 anos e não sei quantas incertezas cabem nos meus dias.

 

O lugar que há em mim

 

Quem me conhece sabe que preciso de pouco para ser feliz. Penso nisto de cada vez que coloco os pés no areal. Olho para o céu e para a sua sintonia com o mar e a vida parece perfeita. Percorre-me uma onda de boas energias e ali deixam de existir todos os porquês.

Sinto-me verdadeiramente em paz. Sinto-me viva!

Este ano, as oportunidades de pisar o paraíso têm sido muito escassas e a prova disso mesmo é que a minha época balnear só abriu oficialmente no passado dia 15 de Agosto: feriado e dia santo, precisamente. E, de facto, aconteceu um milagre.

 

Sonho Eterno

 

Quando me lembro de mim vejo o carvão aguçado das memórias baças: a lâmina fina, o sujo impregnado na fragilidade de traços imprecisos, a mistura de um horizonte distante e completo.

Não me lembro bem do toque dessas palavras amargas porque escorre em mim uma inquietude, uma vida alheia não promissora.

Às vezes, vejo o rodopio destes dias, olho à volta e tudo se assemelha ao que deixei passar.

A vida corre pelo riacho da precaução e nós desaguamos lentamente na solidão que nos entrelaça.

 

Entregue de bandeja

 

Depois de uma chuva de estrelas oculta, o sol penetrou lentamente nos escaparates que resguardavam pouco mais do que os excedentes do dia anterior.

O dia previa-se longo, quente e desgastante.

Era domingo: o dia abençoado para realizar qualquer cerimónia religiosa que acabaria ali, na prática de um dos sete pecados capitais.

Segundo a Divina Comédia, a famosa obra de Dante Alighieri, esta falta conduziria os gulosos até ao terceiro círculo do Inferno: um Lago de Lama. Lá repousariam em rebuliço, imersos no próprio vómito, os detentores de um apetite insaciável.

Todavia, nada disso parecia apoquentar os devotos que até ali se deslocavam em procissão.

Era, por isso, imperativo que tudo estivesse irrepreensível: desde a apresentação do local à quantidade de talheres que se abeiravam dos restantes utensílios igualmente imaculados.